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11 de junho de 2017

Crônica: Raízes e Sentimentos

Ana Lucia Pereira da Silva


Não faz muito tempo que cheguei aqui, se não me engano apenas quinze anos. Uma nova vida se abriu desde que eu deixei minha terra natal e tudo que eu conhecia para trás, a cidade grande de São Paulo sempre foi conhecida pelas oportunidades de emprego que fornecia e esse foi o motivo de eu ter vindo para cá. Mesmo com o tempo passando, eu não consigo esquecer minhas raízes, minhas lembranças permanecem firmes e em alguns momentos são o que me impedem de ficar triste.

Eu me lembro das pessoas, como todas conversam entre si e se conheciam, é o que costuma acontecer em uma pequena cidade do interior com poucos habitantes, me lembro dos lugares que frequentava, da natureza abundante e, especialmente, lembro-me das comidas que fazíamos. Nossa culinária sempre dizia muito sobre o povo, desde um café com garapa de cana-de-açúcar aos biscoitos e chimangos. Talvez seja por essa essência de cultura tão introduzida na comida que elas são as coisas que mais remetem as minhas lembranças.

Não é fácil encontrar alimentos como aqueles que existem no nordeste aqui na grande metrópole, mas quando encontrado é como se alguns biscoitos e chá se tornasse o mais maravilhoso banquete e eu estive reunido com minha família novamente. Cada mordida evoca os melhores momentos que eu vive e as pessoas com quem convive, não são fáceis de explicar os sentimentos que a culinária nordestina trás porque simplesmente não há palavras para descrever a sensação. Espero que algum dia a nova geração seja capaz de sentir algo parecido, mas confesso que ainda estou receoso que isso possa ocorrer porque para que se possa ter uma experiência como essa é preciso ter sensibilidade algo ausente nas pessoas atualmente.

Mesmo que eu esteja longe de tudo aquilo que eu amo, quando eu me encontro diante de comidas típicas nordestinas é como se esse manjar me desse a oportunidade de estar perto novamente nem que seja em pensamentos, lembranças e o que só fortalece minhas raízes.

20 de março de 2017

Contos da quebrada

Illan Yukio


Vivendo em periferia o jovem encontra a dificuldade de descobrir seu caminho em meio a tanta confusão, crescendo sem medo, se viu no crime para poder se sustentar e todo dia ele pedia perdão para sua mãe:
-Desculpa mãe por te fazer chorar, sei que a senhora tentou me avisar que vida bandida não iria compensar, tanto lutou para doutor eu me formar, mas foi a ganância que me impediu de escutar... Será na escola do crime que irei me formar.
O garoto sai em busca de mais um de seus esquemas, se junta com o bando no baile de sexta-feira, ostentando seus malotes de dinheiro de procedência dúbia.
Ele sabe que é um poder que vicia, que é difícil contê-lo. Sempre indo atrás de mais e desafiando o sistema pois desde pequeno era problema, crescendo sem medo de algema, fazendo do dinheiro parte do seu dilema:
“Inimigos vão brotar, de olho no meu lugar” – pensou enquanto fugia dos oficiais da lei. Porém ocorreu o cerco, sem pensar ele aponta sua arma para um civil e o coloca como refém. Não demora para os repórteres chegarem no local e acompanharem de perto seu último suspiro.
-Avisa pra eles que meu “bonde” não vai recuar. Se quiserem minha cabeça podem vir buscar!!!

Aonde ele chegou não conseguiu parar, no entanto seu jogo era bruto e em uma travessa sua sorte se pôs a provar. Essa frase foi noticiada na mídia local e sua mãe com a mão no peito via a cena das viaturas cercando seu filho no noticiário da tarde. Seu destino não foi bom como sua vida e no fim das contas o povo observava sua mãe chorando pela alma do filho no local onde foi baleado.

RESPIRE

Mateus Freitas da Silva 


...Abra os olhos, é um novo dia, porém com uma rotina velha. O trem está cheio, o ônibus está quebrado, as estradas estão travadas e você está só. Um som interfere em sua música, mas parece não te incomodar, afinal, você já está acostumado ao mundo ignorar. Ligar a rádio não lhe parece uma má ideia, mas será que o conteúdo transmitido será novamente sobre a miséria? Pois bem, você devora a sua barra de cereal, dó de você que nem tempo para se alimentar direito tem. Mas de acordo com a rádio, fique feliz, pelo menos uma barra de cereal você tem. 
   O céu está cinza, os prédios são cinza, o chão é cinza, será que você se tornará cinza também? Ou se destacará  desse quadro cinza como uma árvore com belas flores amarelas? Não importa. Café quente na mão, sentado no corrimão, esperando o busão, hoje realmente não está no padrão. Mas quem se importa com você? Desde que não chegue atrasado não haverás problemas, mas você já está passando por um problemão. Já se passaram 50 minutos, falta falar com os amigos virtualmente, pois ninguém tem tempo para se encontrar como antigamente. Oi, Como vai? Estou bem. A conversa termina e seus olhos se voltam para o mundo, aliás, que “belo” mundo.     
   Alguém estica o braço para te pedir uma moeda, mas simplesmente o ignora, você tem problemas demais para se preocupar com os dele. Você segue em frente, vira à direita, depois à esquerda, direita, esquerda, aliás, você é de Direita ou de Esquerda? Não importa. Continue caminhando, continue, continue, é preciso continuar. Faltam apenas 600 metros para o seu destino chegar. 
   Fones nos ouvidos e chaves na mão, bolsa nas costas pesando um montão. O suor desce pelo o seu rosto parecendo lágrimas. Lágrimas de cansaço, dor e calor. Se aproximando dos 200 metros você se depara com um cruzamento, mas está com pressa e não pode parar, não pode parar, não pode parar, pensa. Verde, amarelo, vermelho, você pensa em correr antes do verde aparecer, mas o vermelho pisca te alertando, seus pés querem correr, o farol quer te parar. Corra. Você corre disparadamente, assim como o veículo preto de alto padrão também. Os dois se chocam e a música nos seus ouvidos acaba. Então respire e...

19 de abril de 2016

Se te puxar falar sentir pra ti que tem que vir...

Ráááááá!!! Se eu te puxar você vem? Se eu te puxar você vem!
O som a dança aonde a gente vai e vê o mundo e roda a viva vida vira o mundo pisa a lua a rua o sol o céu o mar o som o ar que gira tudo que se vê se faz ciente de saber viver a vida junto junta tudo e corre pro meu lado vem voar viver verá que tem quem tem prazer de ver a lua a rua o sol o som o mar...
Aaaaahhhhh!! Ouviu o que falei? Ouviu o que falei!
Falei de tudo que senti quando te vi que nem o turbilhão de ar do céu bonito que se vê num dia que mistura sol estrela lua sol e numa vista só na mesma hora que se pisca o olho um pro outro e tem a mão na mão e o coração no coração de cada um pra um pra si pra mim corri pra ti por ti por ir praí...
Oooooooowwwwww!!! Sentiu o que falei? Sentiu que te puxei!
Na vida a gente vê a gente passa a gente voa e perde a vista quando um outro te cutuca a nuca numa só palavra fica a cara rosa boca branca sua mão calor pupila mira ri sorri aperta o braço abraça o passo e passa a mão na nuca sua traz pra mim a boca sua pra perto de mim pra mim pra rir pra ti...
Iiiiiiiiiiiiiiiiiiiihhhhhhhhhhhhhhhhhhhh!!! Não falei? Faloooooooooouu!

Me pegou de calça curta bota larga larga a mão de ser sabido atrevido o dia passa e eu não vivo não te minto quando falo que só sinto lembro o dia que falou pra eu ir e eu fui ouvi o que você falou senti que me puxou e eu fui e hoje estou agora eu vou pra sempre aonde mais você quiser que eu vá eu vou...

Rodolfo Stocco

Algum lugar em algum lugar


Em algum lugar ela vai estar à espera de me esperar ela vai
Em algum lugar ela vai à espera de me levar ela vai
Em algum lugar ela vai cantar a espera de me esperar cantar
Em algum lugar ela vai dançar à espera de me dançar ela vai cantar a espera
Em algum lugar ela vai estar esperando eu cantar para ela cantar a espera que tem de me esperar dançar para ela dançar é a espera do canto do nosso canto da nossa dança
Em algum lugar vou dançar a espera dela à espera do meu canto em sua dança a espera do seu canto eu também canto a dança da sua espera à nossa espera da nossa dança do nosso canto
Em algum lugar ela vai e vou em algum lugar quando ela encantar o lugar!

Rodolfo Stocco

12 de abril de 2016

A vida é uma peça



Teatro vazio, ensaio e aprendizado, uma trilha sonora conduz a peça e quebra o silêncio das vozes. Não há plateia, apenas cadeiras vazias. Teatro lotado, a consequência de uma boa peça, a obra chamada de vida será bem-sucedida quando o roteirista for bom o suficiente para preencher cada cadeira e tocar a alma de alguém eternamente.

Leonardo Jacobson Menezes Teixeira
Ciência da Computação

8 de abril de 2016

Tudo Que Preciso

Não sei quanto tempo estive desacordado, só sei que não esperaria acordar num lugar assim. Deitado, tento ficar de pé, ao que meus músculos reclamam. Com algum esforço, levanto metade de meu corpo, o suficiente para olhar ao redor. Encontro-me numa casa vazia, parecida com a qual estive esses dias; diferencio-as pela enorme quantidade de armadilhas e modificações que existem na minha. “Sem contar que os móveis aqui são bem velhos. Será que alguém ainda mora aqui”.
No instante em que penso nisso, ouço uma alguém murmurar ao fim do corredor. Assustado, logo me ponho de pé, tentando encontrar um esconderijo em meio à escuridão. Uma voz rouca ressoa pela sala:
- Acalme-se, jovem. Não precisa se esconder. Sei que aí está.
O som grave de suas cordas vocais invade meus ouvidos recém-acordados. Vejo uma figura fantasmagórica se aproximar. “E bota fantasmagórica nisso!”. Não acredito no que vejo: ele flutua!
- Sim, sim, meu caro. Sou exatamente que pensa que sou.
- Mas como? - pergunto incrédulo.
- Todos morrem um dia - “Como pode dizer isso assim?”.
- Você não parece morto para mim - replico.
- Talvez não, na prática. Mas, na teoria, já morri.
Preciso de uma pausa para entender o que acontece. Um morto - ou fantasma? - aparece diante de mim e, sem nenhum impedimento, revela sua condição. “Acho que ainda não acordei”.
- Ok, senhor fantasma. Que faz aqui?
- Vivo cá. Não posso sair. E você?
- Estou perdido.
- Entendo.
- Mas, espera aí, disse que não pode sair daqui. Por quê?
- Até poderia, mas não viveria muito.
- Você já morreu, não tem o viver mesmo.
- Você entendeu.
- Não, não mesmo. Porque ficar num lugar assim?
- Cá estou por essas bandas há mais de cem anos. Cá tenho tudo que preciso.
- Tá falando daquele dildo rosa ali encima?
- Não seja idiota. Aliás - começa, com uma expressão carrancuda - Caso cá tenhas vindo para perturbar-me, peço-lhe que se retire.
- Não. Cá vim, pois estou perdido. Já te disse, certo?
- Com vossa mentalidade. Explicado. - “Não achei viveria para ser criticado por um fantasma!”.
- Ok. Deixemos isso de lado. Disse que aqui tem tudo de que precisa. Mas, o que exatamente?
Ele aproxima-se, enquanto olha ao redor em um momento de contemplação.
- A atmosfera - “What. Mas o que? Que tipo de resposta é essa?”.
- Como assim? Tipo a pressão do ar ou a quantidade de gases? - arrisco.
- Não - ele diz enquanto dirige-se a uma estante - O ambiente. Veja - ele aponta para ela- essas são de minha infância.
Vejo o lugar que ele mostra. Alguns porta-retratos antigos jazem caídos sobre a mobília. Vejo algumas fotos de família. Pego um dos quadros. A poeira densa cobre totalmente a imagem. O limpo com a manga de minha camiseta e, assim, consigo ver o conteúdo: duas crianças aparentando certa tensão agarram-se à barra do vestido de uma jovem de sorriso vívido.
- Essa é minha mãe, Janele - ele lança um olhar respeitoso sobre a foto - e meu irmão, Leo - ele aponta para o jovem da direita.
- Este outro é você?
- Sim.
Coloco o quadro na altura de meus olhos e observo a imagem.
- Realmente - começo - é uma linda foto.
- Concordo. É uma de minhas preferidas.
- Hum. Parece haver várias boas fotografias aqui.
- Sim. Mas, a maioria, não mais consigo ver.
- E por quê?
- Olhe - ele aponta novamente, mas desta vez para uma cômoda.
Vejo diversos retratos deitados sobre o móvel.
- Já entendi.
- Lado ruim de ser um fantasma. Não posso arrumar os objetos.
- Lado ruim de ser um fantasma - repito as palavras, um tanto quanto incrédulo, então pergunto - E qual é o lado bom?
- Contemplar existências como a sua.
- Isso é ironia?
- Ironizar, porque não?
- Hey. Não projete suas frustrações para cima de mim. Afinal qual o sentido de viver desta forma?
Vejo-o respirar fundo. “E lá vamos nós!”
- Vejamos - ele esvoaça em direção ao centro da sala - E quanto a sua existência: há algum sentido?
- Nós damos sentido a nós mesmos.
- Boa resposta - ele aplaude, com uma expressão sagaz - E, se somos a mesma espécie, o que te faz crer que não posso dar sentido à minha?
- Haha. Sim, é válido. Mas há uma questão fundamental. O tempo! Não creio que seja possível viver tanto tempo em condições como a sua: solitariamente, sem poder tocar nada; recluso em si mesmo.
- Ora - ele ri sarcasticamente - se não é possível, como explica o fato de eu cá estar? - “É Johnatan, seu idiota”.
- Haha. Tudo bem, você me pegou nesse ponto, mas no que você empreende seu vasto tempo livre? Não há espaço para aplicação de nada; nada para fazer.
- E porque eu deveria?
- Ora, seres humanos sentem o impulso de deixar sua marca.
- Eu não.
- Chega - começo a irritar-me - Você não pode fazer nada e não quer fazer nada, como pode dizer que há lado bom nisso?
- Deixe-me lhe perguntar - ele lança-me um olhar rígido - Quanto você estiver no meu lugar: o que fará?
- Não seria como você diz. Faria algo.
- O que, por exemplo? - sinto a frieza em seu olhar
- Ora, nós humanos temos algo chamado razão, isso transcende a materialidade. Gastaria meu tempo desfrutando dela.
- Mas enquanto à aplicação dela? Você se contentaria em apenas pensar e nada fazer? Como seria ter um mundo dentro de sua mente e um vácuo fora dela? Eu posso lhe dizer - uma pausa - Você morreria.
- O que? - digo, mais gaguejando do que falando - Morrer, depois de morto?
- Quase isso. Você enlouqueceria. Não haveria ninguém para te salvar. Sua mente desvaneceria até o ponto da inércia. Isso é a morte de fato, não carnal, mas espiritual. Sua existência reduzida a migalhas.
- Como? - esforço-me para soltar as palavras.
- É simples - ele diz, mantendo sua expressão fria – Do que adianta ter razão se não a usamos sabiamente? - um olhar penetrante – Que tal dar sua vida em nome de um projeto que jamais terminará, ou almejar coisas que certamente lhe renderão sofrimento? Durante cada instante, fragmentos de si vão desvanecendo, a cada problema. Desesperança, desilusão e dúvida. Esses três ds malignos corroem o ser humano, e não são os únicos. - uma pausa - E depois da morte, será que tudo isso passa? Não, claro que não. Tudo só piora! Você verá toda a desgraça e nada poderá fazer. Agora você entende porque vivo aqui, isoladamente, não entende? Ou acha que gosto de ser um espectador passivo da realidade cruel que envolve o mundo. É nisso que empreenderá seu vasto tempo livre?- uma última pausa - A maior dádiva dos homens é também sua maldição.
Ele sumariza tudo de forma tão certeira que fico sem palavras. Observo meu interlocutor descrever uma volta no entorno da sala, enquanto tenta recupera o fôlego. O silêncio absoluto faz-me refletir no que acabo de ouvir. Como contestar tudo isso? Mesmo que houvesse palavras para dizer, elas não o alcançariam; a essa altura, nem minhas próprias palavras me convenceriam do contrário. Sempre considerei a racionalidade como o alicerce dos humanos, porém tudo que ela faz é nos colocar num círculo de autodestruição. E o pior: ela se encarrega de nos deixar conscientes disso. Sinto que fui longe demais, mas ainda há algo para dizer. Mesmo contrariado, eu começo:
- Então, para que serve a razão?
- Simples - olho-o avidamente - A razão deve reconhecer sua limitação. Deve reconhecer que há só algo capaz de nos manter sãos.
- E o que é? - pergunto, atropelando as palavras.
- A atmosfera - “What. Buguei!”.
Como se estivesse lendo meus pensamentos, ele aponta novamente para os retratos. Ao ver todas essas imagens, sinto vir à tona o sentimento de que o tempo é implacável e de que não como fugir dele. Tudo envelhece e torna-se obsoleto. Ou nem tudo. Há uma coisa que transcende a materialidade tão quanto a razão. “Acho que entendi. O que seria de nós sem as pessoas com quem compartilhamos nossos preciosos momentos que, ao final, tornar-se-ão lembranças? O que seria de nós se nosso raciocínio não nos remete-se às coisas boas que nos envolvem, a felicidade que retemos?. Acho que entendi”.
Levanto um dos quadros que estavam virados para baixo. Não sei desde quanto tempo ele estive desta forma e, caso eu não aparecesse por aqui, ficaria assim por muito mais. Pela primeira vez desde minha chegada, o vejo sorrir; não um sorriso de desdém, mas um sorriso genuíno, que vale por cem anos de solidão. Tão raro quanto à oportunidade de conversar com um fantasma. Tão precioso quanto o conhecimento que acabo de adquirir. Talvez eu tenha me precipitado: o que eu vim fazer aqui? “Chatear uma alma solitária e mortificada pelo tempo? Acho que devo um pedido de desculpas”.

- Então - olho para ele - Aqui, diante de vós, jaz esse humano limitado - ele lança-me um olha de desgosto; ou de arrependimento? - Mas talvez eu ainda seja útil para algo - nossos olhares encontram-se - Quem sabe eu não possa te ajudar com a limpeza - como resposta, um sorriso e um aceno de cabeça; isso é tudo que preciso.

Jeferson de Almeida
Administração SP

Flashes na Escuridão

É meia-noite. O vilarejo encontra-se sob trevas, ao que as luzes das últimas casas apagam-se. Enquanto todos jazem em suas casas a fim de encarar mais uma gélida noite de inverno, ao sul, vê-se um flash por entre as árvores. Em uma pequena clareira, dois homens conversam aos sussurros:
- Desliga essa lanterna. Por acaso quer que nos descubram?
- Como você espera que eu veja alguma coisa nesse breu todo?
A cena que se assiste ali é, certamente, algo pouco usual. Nesta época do ano, em uma região tão afastada dos grandes centros, dois jovens encontram-se numa floresta pouco explorada. Seus aspectos nada habituais e suas vestes incompatíveis com o ambiente demonstram que eles não são daqui.
- Tudo pronto. Vamos!
As horas passam; a madrugada já vai tarde e com ela vem o silêncio absoluto, interrompido somente pelo som dos animais noturnos. À frente, vê-se uma pequena cabana.
- Quem pensaria em morar aí?
- Isso não importa. Tem certeza que eles estão aí?
- Eu já disse que sim.
- Tudo bem. Vamos bater.
Após certo tempo vivendo desta forma, a gente acaba descobrindo algumas formas de diversão. Quem diria que jogar pôquer sozinho no meio da mata poderia ser tão interessante. Estava prestes a jogar meu Full House quando ouço batidas na porta.
Sinto meu coração acelerar. “O que faço? Calma, John. Pense! O que alguém viria fazer aqui há essas horas? Será que estamos sendo seguidos? Impossível! Talvez seja apenas alguém procurando por ajuda. Mas, porque vir justo aqui? Estamos no meio do nada, qual a probabilidade disso acontecer?” Não importa; “Tenho que acordar a Ju”.
- Patrão, está demorando demais.
- Olha só. Você falou que era aqui. É bom ser mesmo.
- Eu tenho certeza.
- Ah é, é? Então por que...
De repente, a porta é aberta.
- Pois não.
Os dois não conseguem disfarçar o susto que levaram. Isso não é bom: afinal, se você bate a porte de alguém, porque se assustar quando ela é aberta? Percebendo o silêncio, o morador inicia o diálogo:
- Vocês vão dizer alguma coisa?
- Desculpe - começa um deles - É que estamos perdidos, gostaríamos de saber se vocês poderiam nos ajudar.
- O que querem de nós?
O homem ergue sua sobrancelha. Uma estranha sensação corre seu corpo. Suor escorre em suas têmporas. Como é possível suar em meio a esse frio congelante? Ele tenta recompor-se.
- Bem, é... Bom, será que a gente poderia passar a noite aqui?
- Vocês? Passarem a noite aqui? Claro que não. Mal os conheço!
- Por favor. Não fazem ideia de como é difícil suportar essas condições.
- Garanto-lhe que sabemos melhor que vocês.
- Mas é só por uma noite.
- Pessoas morrem em uma noite?
O homem engole em seco. A frieza deste jovem diante de si, seu modo enfático de falar, tudo soa estranho e perturbador. Percebendo outra vez o silêncio, o ele recomeça:
- Muito bem. Posso até deixá-los entrar - ele pousa seu olhar em ambos - se vocês responderem a três perguntas.
- Qualquer coisa! - responde um deles, impacientando-se.
- Certo. Lá vai a primeira: São da região?
- Não - respondem - Somos da cidade! - diz um - Primeira vez por aqui! - complementa o outro.
- Pois bem. Então, a segunda: Que fazem aqui?
- Viemos conhecer o vilarejo - afirma um deles.
- Entendo. Aqui vai a última - ele alterna seu olhar entre ambos - Porque me chama de vocês?
Os dois trocam olhares atônitos - Como assim? - exclamam.
- Vou explicar melhor - torna John, maliciosamente - Não são da região, e não a conhecem. Vieram visitá-la, mas já a madrugada já vai tarde, ninguém sai para passear no bosque há essas horas, certo? Além do mais, mesmo que estivessem perdidos, certamente não cairiam para esses lados. Agora, quanto ao "vocês", é óbvio, não? Nada sabem sobre essas bandas, mas falam como se soubessem que estou acompanhado.
Um arrepio sobre a espinha do primeiro, o segundo deixa escapar um grunhido. Droga: eles foram descobertos!
Em seguida, dois estalos e flashes de luz iluminam a escuridão. Ambos caem ao solo, desmaiados.
- É querida - começa John - vamos ter que nos mudar de novo.
- Que pena - diz uma garota, ainda mais jovem que todos, com uma teaser em sua mão - agora que comecei a gostar daqui - completa, rindo.
- Pois é. Mas, a gente arranja um lugar ainda melhor pra ficar.
- Assim espero - diz ela, pondo fim ao diálogo.

O som dos pássaros matinais não deixa dúvidas: termina aqui mais uma movimentada noite. Os dois carregam os corpos para dentro para dar cabo das “cautelas de praxe”. Logo após, os dois seguirão em sua empreitada para revelar os mistérios que os envolvem. Ao fundo, o Sol surge tímido por de trás das colinas. Trazendo a esperança de dias de paz.

Jeferson de Almeida
Administração SP